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Risco de inflação é maior para os países emergentes

Os preços dos alimentos na China subiram 22% em apenas um ano

Petróleo, que já foi o vilão da grande crise dos anos 70, registra altas históricas e também alimenta inflação

Preocupados com os preços ascendentes de commodities como milho, minério de ferro e petróleo, os bancos centrais dos Estados Unidos e da União Européia têm feito de tudo para evitar que a inflação dispare. Mas uma análise econômica mais aprofundada revela que esses países ricos correm muito menos risco de um surto inflacionário do que países emergentes como China, Brasil, Rússia e Argentina.

A taxa oficial de inflação na China, por exemplo, está no patamar mais alto dos últimos 12 anos: 8,5% em maio, contra 3% há um ano. Na Rússia, a inflação saltou de 8% para mais de 14% em um ano. Na América Latina, o cenário é um pouco melhor. Ainda assim, no Brasil a taxa subiu para a casa de 5%, ante 3% há um ano. A situação é bem pior na Argentina, onde os órgãos oficiais divulgaram uma taxa de 8,9%, mas o banco Morgan Stanley estima que a inflação verdadeira esteja próxima de 23% – era 14,3% no ano passado.

Os números chineses confirmam que os alimentos – juntamente com o petróleo – são os grandes vilões. Os preços de comida na China subiram 22% em um ano, enquanto os preços dos demais produtos aumentaram apenas 1,8%.

Diante da ameaça, nações como o Brasil têm lançado mão de aumentos dos juros para conter a demanda e, como conseqüência, a inflação. A taxa de juros por aqui, que ficara estacionada em 11,25% por vários meses, subiu recentemente para 12,25% e os economistas acreditam que ela pode passar de 14% em 2008. Mas os países emergentes, na média, têm sido muito comedidos nas altas dos juros, que estão negativas em muitos deles. Na Rússia, por exemplo, a taxa nominal de 6,5% está quase oito pontos percentuais abaixo da inflação.

Mesmo que os preços dos alimentos estabilizem, as políticas monetárias frouxas adotadas pelos emergentes devem continuar aquecendo a demanda por produtos de outras categorias – e, por conseguinte, a inflação. Afinal, esses países foram responsáveis por 90% do aumento no consumo global de petróleo e metais e por 80% no crescimento da demanda por cereais desde 2002.

Os economistas dizem que, se o arrocho monetário fosse maior, a alta dos alimentos acabaria compensada por quedas de preços de outros produtos. No cenário atual, o que tende a acontecer é o contrário: a carestia de comida se alastrar por outros setores.

Philip Poole, analista do banco HSBC, disse à revista inglesa The Economist que muitos emergentes ficaram sem capacidade produtiva porque os investimentos não ocorreram no mesmo ritmo do crescimento econômico. Isso faz com que os custos de produção das empresas subam e elas queiram repassar tais custos aos compradores por meio de aumento de preços. No Brasil e na Índia, por exemplo, o uso da capacidade instalada da indústria já bateu recordes históricos.

Nosso nível de emprego, aliás, está no patamar mais alto dos últimos 20 anos. O problema, nesse caso, é que num mercado aquecido e com preços em alta os trabalhadores tendem a pedir aumento de salário, alimentando assim a espiral inflacionária.

Quando se examina os emergentes, percebe-se que eles exibem uma saúde econômica parecida com a dos países ricos no começo dos anos 70, quando ocorreu a última grande crise inflacionária. E a comparação preocupa: nos Estados Unidos, a inflação começou a década de 70 em 5,5%, saltando para 13,3% em 1979.

 

Jornal Senado


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